Devoto, jovem vence Miss Brasil Gay Universo com traje em tributo à Nossa Senhora Aparecida

Cabeleireiro de Sertãozinho (SP) diz que escolheu a santa para homenagear sua cidade e estado. Com fé e apoio da família e dos amigos, Lorelai Muller se prepara para concurso mundial.

Em 30/08/2019 08:28:00 na sessão Brasil

Foto: Reprodução/Facebook

Vencedor do Miss Brasil Gay Universo 2019, o cabeleireiro Jurandir Junior, de Sertãozinho (SP), decidiu prestar homenagem à Nossa Senhora Aparecida durante o desfile que elegeu a melhor transformista do país.

Junior, que se transforma em Lorelai Muller, diz que a ideia surgiu durante a escolha do traje que homenageasse a cidade e o estado natal. A santa foi escolhida por ser a padroeira de Sertãozinho e pelo fato de a imagem ter sido achado em um rio paulista, de acordo com a fé católica.

Com ajuda do namorado e das sobrinhas, o cabeleireiro não pensou duas vezes e começou a costurar o traje. Seguro de si, Junior, que também é devoto da santa, afirma que não teve medo da polêmica que a escolha poderia causar.

"Teve comentários de amigos [que] ficaram com medo, mas, como falei para eles, não tinha medo, nem receio, porque estaria homenageando, não estaria fazendo nada que prejudicasse a imagem dela", diz.

Aos 21 anos, Junior diz que não frequenta igrejas regularmente, mas tem fé em Nossa Senhora, a quem ele diz pedir ajuda para enfrentar as dificuldades e ter perseverança para conquistar seus sonhos.

"Eu costumo falar que eu nunca fui tão fiel [à Nossa Senhora] como fui este ano, porque todo dia nós rezávamos, acendia vela, pedindo ajuda para ela", relembra.

A faixa de Miss Brasil Gay Universo foi entregue em São Paulo (SP), no fim de julho, após dois dias de desfiles, palestras e oficinas sobre questões ligadas à comunidade LGBT. O cabeleireiro também contou com a ajuda à família e aos amigos.

"Foram meses de preparação. Eu falo que esse sonho não foi só meu. Foi de toda uma equipe. Nós fizemos rifas, fizemos cestas, pedimos ajuda", conta. "Minha família é a base de tudo para mim. Sem eles, eu não teria chegado até aqui."

Além dos custos relacionados à viagem e à hospedagem, Junior diz que gastou cerca de R$ 8 mil com traje, cabelo e maquiagem. Antes de chegar à fase nacional, ele também venceu o concurso estadual, em fevereiro, quando investiu cerca de R$ 5 mil.

Lorelai Muller, de Sertãozinho (SP), venceu o concurso Miss Brasil Gay Universo -- Foto: Reprodução/Facebook

Futsal de drag queens

Esta foi a primeira vez que Junior participou de concursos de beleza estaduais e nacionais, mas o sonho de desfilar por estas passarelas existe desde quando começou a se transformar, há três anos.

Junior se transformou pela primeira vez aos 18 anos, quando participou de um jogo de futsal para drag queens em Sertãozinho. Na época, ele já havia conversado com a família sobre sua orientação sexual, mas confessa que a ideia de se transformar não lhe agradava.

"Existia um preconceito até dentro de mim. Por falta de conhecimento e pelo que ouvia dentro de casa, falava que jamais ia me montar, colocar uma peruca. Hoje é totalmente diferente", diz. "É uma forma artística, uso a Lorelai para passar informação às pessoas", completa.

O cabeleireiro relembra que não se identificou como drag queen, pois não conseguia - e nem gostava - de usar adereços muito chamativos. Junior afirma que queria, na verdade, se parecer com uma mulher.

"A diferença é que a drag queen é mais colorida, caricata, chamativa. O transformista tem que ficar idêntico a uma mulher. Já a drag queen não. Pode ser mais elaborada, uma peruca mais armada, uma roupa chamativa", explica.

Lorelai Muller, de Sertãozinho (SP), venceu o Miss São Paulo Gay -- Foto: Reprodução/Facebook

União LGBT

Poucos meses após a partida de futsal, Junior começou a participar de concursos na região de Ribeirão Preto (SP), onde conquistou seis faixas, incluindo a de Miss Gay Sertãozinho, que o levou até a disputa estadual.

O cabeleireiro afirma que, apesar de ser conhecido entre os transformistas como "A Caçadora de Títulos", nunca se cobra de vencer. Para ele, o maior prazer em participar dos concursos é o sentimento de união entre a comunidade LGBT.

"O verdadeiro sentido de um concurso de beleza gay é levar cultura, arte e conhecimento. Não levar apenas para o lado da rivalidade e da competição. É saber que você pode ser o porta-voz de uma cidade, um estado, uma nação", diz.

Com a faixa de Miss Brasil Gay Universo no ombro, Junior se prepara para disputar o concurso internacional na Colômbia, em 2020. Ele já começou a se planejar: apesar de as passagens e a hospedagem serem pagas pela organização, a produção de beleza ficará por conta dele.

"Representar a beleza do Brasil é uma responsabilidade muito grande, tenho que estar impecável", afirma. "O nível das meninas é muito alto. Elas são impecáveis dos pés à cabeça. É totalmente diferente", completa.

Enquanto o concurso mundial não chega, Junior divide o tempo entre o salão de beleza que mantém com o namorado e o apoio a uma ONG de Sertãozinho que promove palestras, debates e eventos para LGBTs.

"Procuro passar um pouco de amor, esperança e aceitação. Antes de nos assumirmos para o mundo, temos que nos assumir para nós mesmos. Procuro trabalhar com famílias, levando conhecimento. Acredito que posso abrir portas para futuros LGBTs que virão", finaliza.

Lorelai Muller recebeu homenagem na Câmara Municipal de Sertãozinho, SP -- Foto: Reprodução/Facebook

Fonte: G1 



Por Olhar Cidade 30/08/2019 08:28:00

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